Se você cria conteúdo, assista a Vem Dançar Comigo

Scott Hastings é um jovem dançarino de salão que se envolve em um grande escândalo durante uma competição: ele quer usar os passos que ele mesmo criou. Imagine você o horror dos juízes e de todos os membros da federação, que passaram anos usando os mesmos passos de sempre. Quem é esse cara para desafiar o status quo? Quem ele pensa que é para… pensar por si próprio? Essa história que parece meio maluca – e na verdade é mesmo – foi contada de um jeito ainda mais doido por Baz Luhrmann lá em 1992, em Strictly Ballroom. O primeiro longa-metragem do diretor australiano chegou por aqui em 1993 como Vem Dançar Comigo. Daí você me pergunta: o que isso tem a ver com criação de conteúdo? Tudo.

À primeira vista pode parecer um daqueles filmes previsíveis: o gênio incompreendido que todo mundo tenta fazer mudar de ideia. Menos Fran, a garota desajeitada que faz aulas de dança tendo um esfregão como parceiro e que, como em toda história desse tipo desde O Patinho Feio, se revela um cisne. Enfim, nada que abandonar os óculos, um pouco de maquiagem e da atenção do protagonista não resolvam. Será que ele vai seguir seu coração ou vai se render ao conformismo? Daí você acrescenta umas colheradas de Dirty Dancing, um quê de desenho animado e pronto. Mas não se engane. Vem Dançar Comigo é muito mais do que isso. Mesmo.

Quizás, quizás, quizás

Ao meu ver, o mundo da dança de salão mostrado no filme é bem parecido com a realidade de quem trabalha na área de criação de conteúdo – e com criatividade, de maneira geral.

Imagine por exemplo que em vez de dançarino, Scott é um redator. Ele passou a vida inteira sendo preparado para escrever. Conhece todos os gatilhos mentais, hacks e afins. No dia a dia, seu trabalho consiste em repetir formulinhas de sucesso – aqueles passos tradicionais defendidos pela federação de dança. É claro que eles funcionam, mas eles são só mais do mesmo.

O problema é que, com o tempo, ele percebe que o conteúdo que ele está criando está ficando cada vez mais parecido com o de outras marcas, feito por outros redatores e redatoras. Todo mundo lendo os mesmos livros, seguindo os mesmos gurus, utilizando as mesmas fórmulas. São sempre as mesmas coreografias e ninguém se pergunta por que as coisas são do jeito que são, como se chegou até ali.

Do outro lado, Scott percebe que o público já está ficando saturado da mesmice, e percebe uma oportunidade de tentar algo diferente. No filme, isso fica claro quando ele questiona por que as coisas são do jeito que são, e tem o seguinte diálogo com seu mentor, Les Kendall:

LK: – As pessoas que fizeram esses passos sabem muito mais sobre dança do que você.

SH: – O público não acha!

LK: – Oh, o público. O público, o que ele sabe?

Respeite sua audiência

Se houvesse apenas uma informação que eu gostaria que você guardasse desse texto, é a seguinte: respeite sua audiência. Pare de pensar que as pessoas que consomem seu conteúdo não percebem que você está tentando manipulá-las, jogando a carta da urgência, da escassez ou uma das 1001 fórmulas mágicas que existem por aí. Quer saber por quê? Porque não é só você que está usando essas táticas. Todo mundo está dançando a mesma dança, seguindo os mesmos passos.

Certamente alguém vai tentar te convencer do contrário, como absolutamente todo mundo faz ao longo do filme com nosso protagonista. Afinal, como pode ele trocar a segurança de algo que comprovadamente funciona por uma ideia que nunca foi testada e, exatamente por isso, tem tudo para dar errado? Barry Fife, o presidente da federação de dança resume isso em uma frase:

“Bom, é claro que você pode dançar qualquer passo que queira. Isso não significa que você irá… vencer.”

O curioso, entretanto, é que o público – a audiência – curte a novidade. Conforme o filme avança, a gente percebe que a real é que Scott é visto como uma ameaça à sobrevivência de quem domina o mercado – o que inclui o próprio Barry Fife e seus cursos em fitas de vídeo, em que ensina os passos tradicionais. E ninguém questiona de onde ele tirou isso, só porque ele já está estabelecido.

cena do filme vem dançar comigo, de baz luhrmann
Imagem: Cena do filme Vem Dançar Comigo, de Baz Luhrmann | Divulgação

Busque o conhecimento

Em um determinado momento do filme, o protagonista volta a ser um aprendiz.  Por mais experiente que Scott seja como dançarino, ele descobre que ainda há muito para aprender ao conhecer a família de Fran. É com o pai e a avó de sua parceira que ele descobre o que é o pasodoble em sua essência, as batidas do coração. Ao entender as origens daquele estilo de dança, ele tem o conhecimento necessário para fazer novas conexões e criar seus próprios passos.

A leitura que eu faço, então, é que hacks e fórmulas são apenas um ponto de partida se você não sabe por onde começar. Porque essas “coreografias batidas” são as mesmas que todo mundo usa, e não diferenciam você na multidão. A partir do momento em que você começa a estudar, a buscar mais referências, você muda a forma como você enxerga o mundo. Você encontra sua própria voz. Não tenha medo. Porque “Vivir con miedo es como vivir a medias!” (Viver com medo é como viver pela metade), como diz Fran.

Vem Dançar Comigo é mais do que uma versão australiana e exagerada de Dirty Dancing. Para mim é uma celebração da criatividade, que nasce da paixão e do conhecimento. E por mais que as pessoas tentem te convencer de que você vai se dar mal, lembre-se de que criar conteúdo original não significa que você vai vencer sempre. Mas é uma forma de fortalecer sua marca contando sua própria história, do seu jeito.

Se você ficou com vontade de assistir a Vem Dançar Comigo, o filme está disponível no Amazon Prime.

**A foto em destaque é de um show de flamenco na Espanha em outubro de 2017. Tremida, mas querida.

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