Você consegue se reconhecer na sua biografia?

Estava aqui editando pela centésima vez (quase isso) a minha bio aqui do site. Após revisar o texto, ajustar o que estava me incomodando e reler tudo de novo, me dei por satisfeita. “Agora está redondo”, disse para mim mesma. Pelo menos por enquanto. E logo em seguida me ocorreu a pergunta no título desse post: você consegue se reconhecer na sua biografia – ou quando fala/escreve sobre você? Achei que valia a pena trazer essa reflexão pra cá, pois é um assunto que sempre surge em sala de aula.

Uma das coisas mais difíceis que existe, pelo menos para mim, é escrever biografias (ou páginas “sobre”/descrições de perfis), onde eu tenho que dizer quem sou eu. E não se deixe enganar pelos textos desse blog, tem sido difícil bagarai me expor aqui.

Essa dificuldade acontece por vários motivos: (1) quando penso em quem sou eu, geralmente penso na Amanda jornalista, não na Amanda ser humano; (2) tenho dificuldade de me apropriar da minha história, porque eu a vivo todos os dias, então não vejo nada demais; (3) fico encanada que as pessoas pensem que estou me gabando, a popular Tássia(achando a última bolacha do pacote); (4) tem também aquele medo de se definir em algumas palavras, como se 140 caracteres fossem o suficiente para captar todas as nossas nuances e complexidades; (5) por fim, escrever quem é você é também um exercício de autoconhecimento, e olhar para dentro não é das tarefas mais fáceis.

Boralá falar de cada um desses motivos. Melhor pegar um café ou um chá antes, porque esse texto ficou gigante.

5. Você sabe quem é você?

Como é que alguém pode dizer quem é se nunca olhou para dentro e se perguntou “quem sou eu”? É curioso como evitamos isso a todo custo, com a desculpa da falta de tempo, ou porque nunca precisamos pensar a respeito. Talvez, só talvez, seja medo do que você vai encontrar ali. Ou não.

Eu sempre tive curiosidade a respeito do assunto autoconhecimento, mas até há algum tempo nunca havia olhado para dentro de mim de verdade, apenas com curiosidade e sem julgamento. Sim, padawan, volto a dizer que isso também é difícil bagarai, e olha que eu só arranhei a superfície. Isso é bem recente para mim, e resultado de várias pequenas reflexões, decisões e muitos aprendizados.

Um deles é que cada um tem seu próprio tempo, sabe? Eu senti essa necessidade com 41 anos, pode ser que você sinta antes, depois ou nunca. E tá tudo bem, você é quem sabe o que é melhor para você.

A minha dica aqui, caso você tenha interesse, é escrever. Claro, Amanda, você acha que escrever é a solução para tudo, né? Acho. Para quase tudo, pelo menos, porque escrever é uma forma de organizar os pensamentos e depois, lendo com atenção, ter alguns insights. Faça-se algumas perguntas sobre o que você gostaria de saber sobre você e escreva livremente, sem pensar muito. Não existe pergunta ruim, todas são boas.

Só não recomendo perguntar logo de cara “quem sou eu?”, porque pode ser que isso te trave e você desista. Com o tempo, você vai perceber que sabe muito mais do que quando começou. Se tiver dúvidas sobre esse exercício ou quais perguntas fazer, busque informações a respeito no Google. Mas lembre-se: isso é pessoal, então só faça o que fizer sentido pra você.

amanda de almeida no twitter
Minha bio lá no Twitter

4. Não quero me colocar em uma caixinha

Quem nunca se deparou com um espacinho de nada para dizer “quem sou eu” em uma rede social e pensou: “Fudeu. Não dá”, diante da possibilidade risível de se definir com meia dúzia de caracteres? É, eu sei como é. E o espaço disponível é o menor dos nossos problemas. Literalmente.

Escrever quem somos faz a gente acreditar que é aquilo e acabou, que não dá para ser outras coisas além daquilo ali ou, pior ainda, que não tem como evoluir daquele ponto em diante. Bom, vamos lá: se você está pirando com isso, aproveite a dica lá em cima e escreva. Pergunte-se o por que dessa piração toda e bote no papel.

Sabe, o fato de escrever uma bio não significa que você é aquilo e acabou. Menos ainda que você não pode mudar, evoluir. Porque a real é que a gente não é hoje a mesma pessoa que éramos ontem, e nem seremos as mesmas amanhã. Todo dia a gente aprende algo novo, vive algo novo, avança um pouquinho, regride um pouquinho, e por aí vai. Somos obras inacabadas.

Seu perfil/bio/que seja pode refletir seu momento atual, mas respeitando o que está no seu DNA. Com o tempo descobrimos e aprendemos mais sobre a gente e queremos compartilhar isso. Ou ainda, algumas coisas que você achava legal sobre você meio que perderam o sentido e você quer falar de outras coisas. Por exemplo: minha paixão pelos Beatles é parte de quem sou, e sempre aparece nas minhas bios quando acho relevante, mas não é uma regra escrita em pedra.

Aqui vale aquela dica de pensar no que você quer comunicar (seu objetivo) e onde você está publicando (rede social, site, etc). Porque se você não prestar atenção nisso, pode ser que você apareça de bermuda em uma festa black-tie e vice-versa (o crédito dessa analogia é da galera da Granza Design, mas acho que se encaixa bem aqui).

3. O que vão pensar de mim?

Não sei você, mas eu tenho muita dificuldade em receber elogios. Aliás, muitas das pessoas que conheço são assim. Imagine, então, praticar o autoelogio, me gabar das coisas que fiz. Nem pensar. É claro que há pessoas que estão no outro extremo, valorizando ao máximo suas conquistas, e acho que elas estão bem, também. Daqui eu tenho tentado encontrar um meio-termo: não tentar me colocar como a pessoa mais foda do mundo, porque eu não sou, mas aprendendo a admitir quando eu sou ou faço algo foda. Porque todo mundo tem desses momentos, e precisamos reconhecê-los. Afinal, isso também faz parte de quem somos.

Às vezes julgamos pessoas que ficam “se gabando” por suas conquistas, mas será que não é só uma dor de cotovelo porque nós também estamos fazendo coisas legais e relevantes, mas não contamos pra ninguém? Pense aí a respeito e escreva no seu caderninho (sim, naquele que você começou a usar na primeira dica).

Você pode se gabar de quem é e das coisas que fez, sim. Desde que seja verdade, por favor.

Minha vó já dizia que mentira tem perna curta. E eu completo dizendo que basta dar um Google para puxar a capivara alheia. Use o bom senso.

perfil de amanda de almeida no instagram
Essa é a bio no meu perfil pessoal do Instagram

2. Ah, mas qualquer um faz isso…

Provavelmente eu repeti essa frase tantas vezes quanto a escutei. Para mim é muito fácil dizer o quanto alguém é incrível e identificar o que torna essa pessoa única, mas quando se trata de mim mesma, tenho dificuldades em encontrar algo que me destaque, o tal do diferencial.

Precisei da ajuda de pessoas muito mais espertas do que eu (obrigada, vocês sabem quem são) para entender que nossas experiências, aprendizados e histórias, por mais cotidianas que sejam, podem ser úteis e relevantes para outras pessoas. Foi assim que eu fui convencida, por exemplo, a começar a dar aula.

Até então, eu acreditava que, por trabalhar com conteúdo todos os dias – além do fato de ter um monte de pessoas falando sobre isso – eu não teria nada para acrescentar à conversa. Ignorei que poderia usar a regra número 1 da criação de conteúdo: autenticidade.

Autenticidade é trazer seu olhar, suas experiências e histórias. Quem somos e o que vivenciamos não é igual a outra pessoa, por uma série de motivos. Mas pode ser parecido e, por isso mesmo, ser útil e servir de inspiração para que alguém tome uma decisão (ainda que seja a de comprar um caderno), escolha um caminho ou escreva sua própria história.

Se você duvida é só olhar para as pessoas que você acompanha ou admira. O conteúdo que elas produzem ressoa em você de alguma maneira, e já é parte de quem você é.

1. Você não é seu crachá

Esse subtítulo é, na verdade, emprestado do título de um episódio do podcast Boa Noite Internet, do Cris Dias (ainda vou falar muito dele por aqui, então já aproveita para assinar e começar a escutar. De nada).

Geralmente, quando alguém nos pergunta “quem é você?”, a primeira informação que damos para nos identificar é o nosso nome, seguido quase-que-grudado da nossa profissão, cargo ou local de trabalho. E algumas vezes seguimos por esse caminho, como se nosso currículo fosse quem somos. O crachá (ou currículo) é apenas uma parte de quem somos e, dependendo do contexto, ninguém quer saber se sou jornalista, qual é meu cargo e onde eu trabalho.

Se você pegar seus personagens favoritos no cinema ou na literatura, o “crachá” deles é o que menos importa quando eles são apresentados. A personalidade, seus valores, sua história, crenças e paixões nos dizem muito mais sobre eles do que a profissão, cargo ou onde trabalham. Por que você achou que com a gente seria diferente?

Quando eu estava escrevendo minha bio aqui pro site, eu quase caí no erro de me definir pelo meu currículo. Afinal, aqui é um espaço com uma pegada mais profissional (contexto, olha ele aqui). Ainda assim, não dá para separar a Amanda profissional da Amanda ser humano, por mais que eu tente.

A Amanda jornalista é parte da Amanda pessoa, que tem qualidades, defeitos, histórias, pontos de vista. Em um trabalho o profissionalismo vem em primeiro lugar, mas ao dizer quem sou eu, o trabalho não é tudo.

Eu sou mesmo a pessoa que faz piadinhas infames, que tem mais cadernos do que amigos, que vive rodeada de livros, dá palpite em tudo e faz perguntas o tempo inteiro.

Tô terminando, juro!

Se você está em dúvida sobre como definir quem é você, comece escrevendo sobre as coisas que você curte, histórias que você gosta de contar sobre você, suas lembranças mais queridas. Aos poucos, você vai começar a identificar alguns padrões – valores, qualidades, defeitos. Isso tudo vai te dar ótimas pistas.

Lembre-se que você, assim como qualquer outra pessoa (e também esse site) está em construção. A bio no seu perfil não é definitiva e você pode alterá-la quando sentir necessidade. Também sei que se expor é difícil. Mas a gente precisa aprender a se apropriar da nossa história se queremos nos reconhecer na nossa biografia.

E sim, enquanto você lê isso eu devo estar comprando (ou pensando em comprar) outro caderno, e ninguém vai me impedir.

*A foto em destaque é de algumas das biografias que eu li nos últimos anos e que você encontra na minha estante, em foto de junho de 2020.

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