O que realmente torna uma pessoa única?

“Você é única”, me disse o professor Silas Rodrigues Gonçalves no primeiro dia de aula de Introdução ao Estudo do Direito, ao apontar para mim e pedir que eu me apresentasse para a sala. Eu tinha 18 anos, ele – se não me engano – já passava dos 80. Pelo menos foi o que nos disse, contando tudo o que fazia para se manter ativo. Ao perceber que meu rosto queimava e a voz  entalava na minha garganta, ele repetiu: “Você é única, com um nome e sobrenome. Comece por aí”. Apesar de não ter concluído o curso de Direito, essa lembrança ficou comigo porque, desde aquele dia, uma pergunta não sai da minha mente: afinal, o que realmente torna uma pessoa única?

Toda aula, o professor Silas exigia que a gente se identificasse por nosso nome e sobrenome quando queríamos dizer algo. Ele costumava nos orientar a falar alto e claro, já tentando nos preparar para a carreira jurídica – ou talvez ele só não nos escutasse direito. No final, essa experiência foi bastante útil para meu trabalho como jornalista, pois sempre tinha que me identificar pelo meu nome e sobrenome antes de começar uma entrevista.

O que eu percebi depois, já na reportagem, é que sim, o nome e o sobrenome são um ponto de partida para se identificar uma pessoa. Porém, não era o que a tornava única. Homônimos e xarás estão aí para provar esse ponto. Se você já jogou seu nome completo no Google para ver o que aparece, sabe do que estou falando.

Certamente você percebeu que de fato tem um monte de gente por aí com seu nome e sobrenome, algumas até na sua área. Ah, mas o número do RG é diferente. Sim, mas isso nunca impediu problemas com troca de identidade.

O que torna alguém único, segundo a ciência?

Algumas pessoas poderiam dizer que é o DNA. Afinal, o código genético tem sido usado frequentemente pela ciência como um diferenciador para esclarecer crimes e determinar paternidade. Porém, se você já assistiu a tantas séries policiais quanto eu, você também sabe que gêmeos idênticos compartilham o mesmo DNA*. Mas não suas impressões digitais (um beijo, Olivia Benson!).

Então podemos concluir que o que torna as pessoas únicas são suas impressões digitais? Sim, também. Porém, Mandis não é um blog de ciências, como você já deve ter notado. O papo aqui vai por outro caminho.

Ao meu ver, o que torna alguém único é a somatória de todo seu conhecimento, seus aprendizados. São os livros que lemos, filmes e séries que assistimos, músicas e podcasts que escutamos, os lugares que visitamos, as pessoas com quem convivemos. É cada experiência que vivenciamos desde que nascemos. Tudo isso é parte de quem somos. É o nosso conteúdo.

Definição da palavra conteúdo no dicionário do Google
Imagem: Reprodução do Google

Iguais, mas diferentes

Tá, então quer dizer que mesmo gêmeos idênticos (ou gêmeas idênticas) com roupas iguais e nomes parecidos, que são filhos dos mesmos pais e mães, estudaram na mesma escola, dividiram as mesmas amizades, leram praticamente os mesmos livros, têm praticamente o mesmo DNA (mas não a mesma impressão digital, isso é importante) podem ter histórias e, principalmente, visões de mundo completamente diferentes?

Podem.

Porque, na hora em em que tudo isso se mistura dentro da gente, as conexões que fazemos entre essas informações varia de pessoa para pessoa. Esse conhecimento formata a leitura que fazemos do mundo, que afeta nosso entendimento, que afeta as conexões que vamos fazer, e assim por diante. É um looping infinito. Ou seja, mesmo com muitas coisas em comum (até iguais), o resultado pode (e costuma) ser diferente.

Sinônimos de conteúdo
Imagem: Reprodução do sinonimos.com.br

O que isso tem a ver com conteúdo?

A minha conclusão nessa história toda, que começou lá em 1997, é que o professor Silas tinha razão. Até um certo ponto. De fato, nosso nome e sobrenome, assim como nossa impressão digital, contribuem para fazer de cada pessoa única. Isso tudo, entretanto, é uma embalagem para um conteúdo,“aquilo de que algo é constituído, formado”, conforme diz o dicionário.

Ao meu ver, é nosso conteúdo que faz de nós quem somos, o que realmente torna uma pessoa única.

Cada pessoa traz dentro de si um conteúdo único, resultado da combinação de tudo aquilo que viveu em cada dia de sua vida. Do primeiro choro ao último suspiro, somos recipientes de referências e experiências que moldam a maneira como enxergamos o mundo. Mais do que isso, determinam as escolhas que fazemos, os caminhos que seguimos e as histórias que contamos – e como as contamos.

E você, o que acha que torna uma pessoa única?

*A título de curiosidade, a ciência já possui recursos para diferenciar as sutis diferenças existentes no DNA de gêmeos univitelinos.

**A foto do destaque eu tirei do meu bom e velho Dicionário Aurélio em junho de 2020.

Deixe um comentário